Colégio Goyases e Columbine

A busca por respostas

Dalvanira Lima, Psicanalista

29 de outubro de 2017

Mais uma vez a perplexidade toma conta da opinião pública diante de um caso de violência como o que aconteceu recentemente numa escola de ensino fundamental em Goiás. Um garoto de 14 anos, armado com uma pistola .40, tirou a vida de dois colegas de classe e feriu mais quatro.

Como sempre acontece em casos similares, fervilham as buscas de razões que, de alguma forma, expliquem o que levaria uma pessoa, no caso um adolescente, a cometer um ato de tal magnitude. No rol dessas justificativas sempre está a responsabilização dos pais por não terem propiciado ao filho o suporte emocional necessário para que ele pudesse lidar com os desafios inerentes ao convício social. Nesse caso não foi diferente.

Quando li nos jornais uma declaração nesse sentido, de imediato, lembrei-me do livro “O acerto de contas de uma mãe”, de Sue Klebold, mãe de Dylan Klebold, um dos dois garotos que participaram do tiroteio na Escola de Ensino Médio de Columbine, nos EUA, em abril de 1999. Armados com pistolas e explosivos mataram doze alunos, um professor e deixaram vinte quatro alunos feridos para, em seguida, suicidaram-se.

 

Dylan Klebold e Eric Harris

O livro, publicado em 2016, traz o relato de uma mãe que não ficou um único dia, após aquela tragédia, sem se perguntar “Por que meu filho cometeu esse ato e o que poderíamos ter feito para impedi-lo?”.

A busca dessas respostas norteia a narrativa do livro e funciona como a montagem de um quebra cabeças que, se de um lado, oferece uma melhor compreensão do caso; por outro, reúne os cacos de uma mulher despedaçada pela tragédia.

Na medida em que se avança na leitura, também somos levados a procurar as razões que levaram Dylan aquele desfecho trágico. O que ocorre, no entanto, é que a cada página, nos deparamos com a sensação de que, isoladas ou mesmo em conjunto, as razões parecem insuficientes para justificar seu ato.

Ainda que Sue Klebold não faça dessa narrativa um álibi para fugir da responsabilidade de mãe, seu livro nos leva a refletir sobre o grau de liberdade que tem um indivíduo na constituição de sua subjetividade a partir do que lhe é oferecido no ambiente familiar.

O relato e a pesquisa minuciosa realizada por Sue ao longo de dezesseis anos até a publicação do livro, nos convida a sermos mais cautelosos quanto às explicações simplificadoras a respeito de casos como este, ainda que venham dos chamados “especialistas” e, principalmente, quando as justificativas visam apontar culpados.

Sue Klebold. O acerto de contas de uma mãe – A vida após a tragédia de Columbine. Tradução: Ana Paula Doherty. Editora Versus, 2016.