Pelo Whatsapp:  “Não te amo mais”

Dalvanira Lima, Psicanalista

12 de setembro de 2019

Outro dia me chamou atenção a palavra “SAIA”. Quatro letras maiúsculas e enormes fixadas na fachada do apartamento de um prédio. É claro, que não sei o que a pessoa que colocou essa palavra quis dizer, mas não resisti em criar minha própria versão.

 Pensei logo em alguém mandando embora outro alguém que ele não suportasse mais. Aquela palavra que pelo tamanho das letras soava como grito poderia muito bem ser um “Saia da minha vida”.

 

Mesmo que essa inusitada maneira de romper um relacionamento seja mero devaneio, na vida real têm acontecido situações em que o conhecido “fora” não é dito “olho no olho”, mas via mensagem de Whatsapp.

Recentemente, esse assunto foi discutido nas redes sociais em razão do suicídio de uma Youtuber, avisada pelo noivo na véspera de seu casamento, via Whatsapp, de que não queria mais se casar com ela.

A polêmica foi aguçada pelo desfecho trágico da história, mas acredito que vale a pena pensar nas implicações dessa maneira de evitar o contato pessoal quando se trata de dizer ao outro “Não te quero mais” e qual a repercussão disso para os dois lados da história.

Nesses casos, ainda que num primeiro momento tendamos a olhar para aquele que é comunicado de que não é mais querido, há de se pensar também nas razões que impedem o outro de sustentar no “cara a cara” seu desejo de sair da relação.

Foto de Rachid Tank/Unsplash Photo Community

É inegável que o término de um relacionamento amoroso pode gerar sofrimento e despertar uma gama de sentimentos, independentemente da maneira como isso aconteça. Então, que efeito teria essa comunicação virtual na elaboração da perda do amor do outro e na posição subjetiva de cada um dos envolvidos?

Por mais que a comunicação virtual esteja mediando cada vez mais nossas relações, ainda não dispensamos a presença real do outro, e se pensamos numa valoração, esta ainda suplanta a primeira.

Desta valoração pode advir, para quem recebe a mensagem do término do relacionamento, o sentimento de falta de reconhecimento de sua pessoa e da história vivenciada por ambos, visto que o outro nem se deu ao trabalho de comunicar pessoalmente.

A comunicação virtual, nesses casos, também pode dificultar a aceitação do fato. O virtual como oposto do real pode alimentar o sentimento de negação diante da perda do amor do outro. Some-se a isso, a sensação de que frente a frente algo poderia ter sido feito para que o desfecho não fosse o do rompimento.

Tanto quanto o luto pela morte de um ente querido, o luto por outras perdas que enfrentamos no decorrer da vida também requer elaboração, o término de um relacionamento amoroso, por exemplo. E quando isso ocorre de forma virtual, eu diria que se acrescentam mais dificuldades ao processo de elaboração.

O rompimento de um relacionamento amoroso pode fazer reviver a experiência de desamparo primordial a que todos nós como humanos estamos sujeitos. Afinal, desde que chegamos ao mundo precisamos e demandamos o amor do outro.

 

“Nunca estamos mais desprotegidos ante o sofrimento do que quando amamos, nunca mais desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou seu amor.” Freud (1930)

Se isso vale para qualquer forma de desfecho, tendo a achar que para aquele que utiliza o meio virtual para comunicar seu desejo de sair da relação, seja uma maneira de driblar sua incapacidade de suportar presencialmente a reação do outro frente à situação de desamparo.

A comunicação virtual nos dá a sensação de um tempo mais acelerado. Problemas que antes demandavam deslocamento, hoje são resolvidos com uma simples mensagem no Whatsapp.

Resta-nos saber se o tempo psíquico acompanha esta mesma velocidade quando se trata dos impasses das relações afetivas.